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SERVIÇO SOCIAL DO HC CONSEGUE ENCONTRAR FAMÍLIA DE PACIENTE

Uma família vai ter o Natal mais feliz esse ano, e graças ao trabalho da equipe que atende os pacientes na Psiquiatria da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV). A matriarca da família, que estava desaparecida há quase 5 meses, foi entregue ao seus parentes depois de um período de internação, quando recebeu tratamento e estímulo por parte da equipe multiprofissional do setor psiquiátrico para tentar recuperar  a memória, além da saúde abalada.

A jornada para voltar ao lar daquela que ficou conhecida no setor de Psiquiatria da FHCGV como a “Desconhecida da Arthur Bernardes” teve início no dia 22 de julho desse ano. Por volta da meia-noite, quando uma mulher deu entrada na emergência psiquiátrica, trazida por uma equipe do Samu. Ela estava na Rodovia Arthur Bernardes, andando entre os carros que trafegavam no local. Estava muito agitada, delirando e com sintomas de uma saúde debilitada. Não havia como obter nenhuma informação com a paciente sobre a sua procedência, seus parentes ou alguém que pudesse ser contactado.

Logo após a chegada da paciente, foi dado início ao Protocolo de Desconhecidos. Nele constam os procedimentos para se localizar parentes e conhecidos de pacientes que não tenham condições de se comunicar. O primeiro passo é obter o máximo possível de informações com a equipe que realizou o resgate do paciente. É com base nessas informações que será feita, posteriormente, o que se chama de busca ativa no local do encontro. Esse trabalho é feito pela equipe multiprofissional. A assistente social Gisele Soares se deslocou até o local na Rodovia Arthur Bernardes e, com uma foto da desconhecida, tentou o reconhecimento junto aos moradores da área, ação que não teve êxito. A mesma foto foi enviada para os meios de comunicação para tentar o reconhecimento.

Enquanto a busca era feita, a paciente Desconhecida da Arthur Bernardes lutava contra vários problemas de saúde. Ela, ao chegar, apresentava várias úlceras pelo corpo, tendo sido constatado, através de exames, que havia também úlceras na região gástrica,  o que obrigou o uso de sonda para que ela conseguisse se alimentar. Paralelo a esse cuidados, a equipe tentava estimular as lembranças da paciente. “Nós fazemos a estimulação do paciente tentando fazer com que ele se lembre de fatos, histórias, que levem à descoberta de sua origem. No em questão, ela, um dia, disse, depois de ser perguntada como era o seu nome, que se chamava Maria”, relembra Rita Favacho, chefe da enfermagem da Psiquiatria.

As buscas externas levaram também a assistente social Gisele Soares ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop). No local poderia haver o registro da passagem da paciente desconhecida. O Centro Pop, inaugurado pela Prefeitura de Belém em 2013, faz abordagens, cuidados com higiene e alimentação, além de cadastro e entrevista para o encaminhamento à rede de proteção social de pessoas que estejam em situação de abandono nas ruas. Mas, como atestou a assistente social Giseles Soares, “não havia registro de passagem ou alguém que lembrasse da nossa paciente”.

“Ela voltou” – O resultado negativo das buscas feitas externamente direcionaram as expectativas da equipe nas tentativas de fazer  a paciente recuperar a memória. A psiquiatra encarregada do tratamento diminuiu a dosagem dos remédios, uma vez que chegou à conclusão de que o estado da paciente era causado por demência, provavelmente Mal de Alzheimer. Isso facilitou a volta de lembranças aos poucos, com nomes e fatos, como a de que havia perdido um filho. O progresso mais significativo foi quando Maria, numa das sessões de estímulos, lembrou de um ônibus que passaria perto da sua casa, a linha Guamá-Montepio. Esse novo dado fez com que a equipe se decidisse em visitar o local, mas dessa vez levando a paciente junto. Mas na data marcada, os problemas gástricos de Maria voltaram a se manifestar, impossibilitando que ela pudesse sair do hospital.

No dia 19 de dezembro, enfim, a equipe responsável pela busca ativa, junto com a paciente, se deslocou para área do final da linha do ônibus que havia surgido das lembranças de Maria. No local, próximo ao Canal do Tucunduba, junto a uma das entradas da Universidade Federal do Pará (UFPA), o primeiro sinal positivo. “Paramos uma pessoa e perguntamos se ela conhecia aquela senhora… e a resposta foi positiva”, lembra a Gisele Soares. Caminhando na direção indicada, mas uma pessoa reconheceu Maria, e apontou a rua onde ela morava.

Chegando ao local, os moradores indicaram rapidamente a casa onde a paciente morava. Na chegada, a emoção tomou conta de todos. Uma família inteira – pai, mãe e dois filhos pequenos – correu para abraçar aquela que um dia foi uma desconhecida. “Ela voltou, não disse disse que ela voltava para o Natal”, repetia aos gritos o pai, que se identificou como José Carlos de Oliveira da Silva, um dos filhos de Maria, que realmente se chamava assim, Maria Júlia de Oliveira, nascida em janeiro de 1958.

Em meio a recepção mais do que feliz, o filho de Maria relatou que essa foi a segunda vez que a mãe havia desaparecido. Na primeira, foi localizada rapidamente, próximo à residência, onde mora com o filho, e trazida de volta. Na segunda, o sumiço deixou a todos muito preocupados, mas “com a esperança de que ela voltaria logo, para tornar o nosso Natal mais feliz”, nas palavras emocionadas do filho, que vive de uma aposentadoria por invalidez.

Histórias – Finais felizes como o de Maria são raros. Atualmente, duas mulheres e um homem se encontram na mesma situação que ele no setor de psiquiatria da FHCGV. Os pacientes em sofrimento mental que não conseguem dar referências para localizar parentes, ou amigos, acabam geralmente ficando internados em hospitais psiquiátricos, enquanto buscas são feitas para tentar levá-los de volta para casa. O internamento se faz necessário por conta da falta de respostas sociais para o acolhimento de pessoas em situação de abandono na idade adulta. A maior parte dos recursos é destinado à infância àqueles que já chegaram à velhice.

Uma tentativa de dar melhor tratamento a essas pessoas são as Residências Terapêuticas, que reproduzem o ambiente familiar ao mesmo tempo em que prestam assistência psiquiátrica, psicológica e outros cuidados aos internos. Em Belém, atualmente, há somente um abrigo desse tipo, no distrito de Icoaraci, onde moram atualmente 15 pessoas.

O lado mais dramático surge quando os parentes localizados se recusam a receber os pacientes. É o caso de um septuagenário que se encontra no internado no HC porque a família resiste em recebê-lo. Isso levou a direção a procurar a justiça, que deve tomar uma decisão sobre o caso.

Mesmo com essas dificuldades, a busca ativa para encontrar parentes de pacientes, feita pela equipe multiprofissional da psiquiatria, tem momentos de sucesso e alegria. São histórias que lembram enredos de filmes de investigação policial. Nessa busca, assistentes sociais já viajaram a Estados com pistas mínimas, ou fotos, ou ainda apenas um nome de uma rua. Com a internet, esse tipo de busca ganhou um instrumento poderoso.

Mas há, também, histórias que terminam bem por conta da ajuda vinda de onde menos se espera. Foi caso da paciente, recolhida nas ruas de Belém, e que chegou à emergência psiquiátrica sem saber o próprio nome, nem sabia de onde tinha vindo. Com o tempo, a desconhecida começou a se comunicar, com certa dificuldade, e até a falar em outras línguas, mas sempre se negando a falar mais sobre o seu passado.

O mistério foi desfeito quando certo dia pessoas se apresentaram à equipe médica dizendo serem parentes da paciente. Eles disseram que chegaram até o hospital por causa de uma carta, enviada por alguém que havia feito amizade com a desconhecida. Nela, a desconhecida dizia onde estava e contava a sua história. Segundo o relato, ela casou com um cidadão alemão, com quem foi morar no país natal dele. Depois de alguns anos, já com filhos, o casamento acabou, por conta de problemas psicológicos da esposa, que foi expulsa de casa pelo companheiro. Ele pagou a passagem de volta com destino que não era a Bahia, terra da paciente. Ele vagou por vários Estados até chegar ao Pará, onde foi atendida no Hospital de Clínicas, e onde foi encontrada pelos parentes, depois da carta de um bem feito desconhecido.

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